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no site: 01/julho/2004
AS SIMILARIDADES E DIFERENÇAS ENTRE BRASIL E ARGENTINA -->
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aqui para ouvir a leitura do texto (Narração:
Maurício Martins)
As duas maiores economias da América do Sul encontram-se hoje seguindo
estratégias totalmente distintas. A Argentina e o Brasil tiveram no
final dos anos noventa um desajuste fiscal considerável e enfrentaram a
má vontade do Mercado Internacional para continuar financiando seus
crescentes déficits públicos.
Ambas economias passaram por um ajuste neoliberal, prevista no consenso
de Washington e, em conseqüência disto, acabaram privatizando suas
estatais, mantendo um Estado menos envolvido com Produção e Políticas
de Fomento. As duas economias no final dos anos '90 e começo do novo
milênio perceberam que os ativos advindos das privatizações só
aliviaram o pagamento de juros de uma dívida crescente. Era necessário
ir mais fundo nas reformas.
A Argentina calculou que, com seu risco país acima de 6000 pontos e com
déficits freqüentes em transações, pouco poderia esperar do mercado
internacional. Fechou-se para o mercado, deixando de pegar os títulos
da dívida em 2001 e hoje tenta renegociar os bônus em
"default" por outras com prazos de pagamento mais longos e
atrelados ao crescimento do PIB.
Dificilmente os credores aceitarão tal proposta. Entretanto, o exemplo
da Argentina é mal comparado a um cliente inadimplente que o banco
chama para repactuar a sua divida. Enquanto estiver nesta situação
dificilmente novos investimentos estrangeiros entrarão na Argentina que
passará a sobreviver graças à valorização dos
"commodities" facilmente exportáveis para todo o mundo. Para
um país cuja população equivale a do Estado de São Paulo não é
exatamente impossível enfrentar estes tempos difíceis. É claro que
sua indústria e seu parque de serviços sofre uma recessão tanto por
falta de mercado interno como pela obsolescência de processos
produtivos e sobretudo pela quase ausência de novos créditos bancários.
O Brasil cujo risco país era cerca 1/3 da Argentina poderia optar por
um duro ajuste fiscal, tentando reequilibrar suas contas governamentais
e diminuir o estoque de sua dívida. Acabou
decidindo ir por este caminho. De imediato conseguiu que a Banca
Internacional voltasse a dar crédito a grandes empresas aqui
estabelecidas, impedindo que elas entrassem em um processo de obsolescência.
Nossa vocação agrária - industrial ajudou a reequilibrar a balança
comercial e o corte de investimentos trouxe um resultado mais favorável
das contas nacionais. A taxa Selic caiu e paulatinamente a economia
cresce a taxas modestas, é
verdade.
Entre perdas e ganhos os ajustes das duas economias mostram diferentes
efeitos: a Argentina vem crescendo a taxas maiores, aproveitando o bom
momento da alta do mercado de "commodities". O Brasil voltou a
ter crédito para suas empresas, normalizando sua necessidade de capital
para investimentos.
Ambos países, entretanto não dispõem de recursos para investir em
infra-estrutura, perdendo eficácia no transporte e embarque de suas
mercadorias. O desemprego é alto nas duas economias e atinge
basicamente os grandes centros urbanos industriais e prestadores de
serviços. A classe média dos dois países sofre e a violência nos
centros urbanos aumenta.
As duas economias são vulneráveis à alta da taxa de juros americana,
ao protecionismo do mercado agro - industrial dos países desenvolvidos
e a desaceleração da China, importadora de "commodities" e
dependem da simpatia/ tolerância dos técnicos do FMI - que por sinal já
se declaram contra a política de distinguir gastos de investimentos,
política esta proposta pelos dois países. Recentemente o FMI
"autorizou" o Brasil a faze-lo a título de teste.
Um leitor mais crítico diria que seria difícil optar por qual destes
dois "infernos" um cidadão deveria optar. Mas a longo prazo,
a opção brasileira ainda consegue ser mais saudável do ponto de vista
macroeconômico. Entretanto, o custo político e social é altíssimo.
Dificilmente um governante vai se manter a um nível alto de
popularidade e as alianças políticas em nome da governabilidade tornam
impossíveis quaisquer programas conseqüentes do governo.
Lula e Kirshner perdem popularidade assim como FHC e De La Rua perderam.
O esvaziamento político da liderança da região é preocupante.
A região busca novos mercados e aliados comerciais como Índia, China,
África do Sul, Oriente para se tornarem economias menos vulneráveis à
Alca e à União Européia.
Encerrando: a região terá que crescer/sobreviver de maneira
auto-sustentada sem grandes "delírios" de que a crise por que
passam pode ter uma solução mágica!
(José O. Portugal Danti)
José O. Portugal Danti é consultor e pesquisador e há 14 anos
é presidente da Raciocínio e Ação,
(www.raciocinioeacao.com.br) companhia voltada para o
crescimento/recuperação de empresas e pesquisas. Executivo de
grandes empresas multinacionais, como por exemplo, J Walter
Thompson, Colgate/Palmolive, Seagran, Credicard e Banco
Chase. Membro atuante da Associação dos ex-alunos da Fundação
Getúlio Vargas (FGV). Contato: raciocinio@raciocinioeacao.com.br |