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:: Entrevista ::
05/01/2004
Com: Paulo Gomes (Analista de Mercado da Global
Invest) -------------------------------------------------------------------------------------------------
à
Ouvir a entrevista em áudio
(clique
aqui)
Abaixo, você confere a entrevista
do Portal Economia sobre o mercado financeiro nesta segunda-feira
(05/01/2004):
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Maurício
Martins (Portal Economia) – A segunda-feira foi um dia de
excelentes notícias: dólar em queda, a R$2,855 para venda, Bovespa em
forte alta de mais de 4,5% passando de 23.000 pontos, C-BOND a 99% do
valor de face. Como você recebeu esta notícia nesta segunda-feira?
Paulo Gomes (Global Invest) – Pois
é, eu acho que isto reflete o otimismo do mercado internacional com o
Brasil. Muitos achavam que o otimismo fosse terminar ao longo de
dezembro, dado que 2003 foi um excelente ano. Vamos lembrar que no ano
passado a Bovespa subiu 97%, tivemos uma redução de risco batendo
recordes, eu acho que o que está acontecendo é um fenômeno natural,
no qual as pessoas tendem a ser conversadores no final do ano, para
terminar em dezembro um ano tranqüilo sem fazer muitas apostas de
risco, uma vez que já conseguiu-se bons ganhos para mostrar aos
clientes/investidores.
E chega Janeiro, e o Brasil continua sendo um mercado emergente com
excelente perspectiva de crescimento, e vale a pena realmente apostar no
Brasil, e foi isso que os investidores estrangeiros fizeram nesta
segunda-feira.
Maurício Martins (Portal Economia) – Foi o primeiro
dia útil com maior movimento, e inclusive o risco país chegou a cair
quase 10%, para 424 pontos.
Paulo Gomes (Global Invest) – Exatamente. Sexta-feira não se pode
contar [como dia de negócios] , uma vez que na parte comercial foi um
dia de US$35 mi de superávit na balança comercial contra saldos médios
de US$600 mi no resto de dezembro. Por isso, hoje é que começa mesmo o
ano.
Maurício Martins (Portal Economia) – Você acha que este
otimismo tem um respaldo, ou foi exagerado para um dia só?
Paulo Gomes (Global Invest) – Eu acho que existe as duas coisas
de certa forma. Existe respaldo, pois realmente o risco do Brasil está
num nível que agora se aproxima mais do de outros países. Nós tivemos
por exemplo, a Rússia que está com cerca de metade do risco do Brasil,
e vamos lembrar que ela há cerca de cinco anos atrás declarou
‘default’ (ou seja, deixou de pagar parte da divida externa e da
divida doméstica), e o Brasil fez o mesmo há cerca de 15 anos.
Então, realmente deve haver um ajuste. Isto é natural no mercado,
depois de um dia excelente, uma correção no outro dia, chamada por
muitos pelo jargão ‘realização de lucros’. O que acontece,
por exemplo, é que muitas pessoas que chegam em casa depois do mercado
e não estão diretamente ligadas a ele, vêem os seus investimentos
subirem bastante e por isso apressam-se em vendê-los. Então, nesta terça-feira,
podemos ver alguma correção, porém a tendência para o curto e médio
prazo é de otimismo, mas para isso tem que ser mantidas as rédeas do
controle político no Governo. Hoje, por exemplo, o Lula fez a reunião
ministerial logo no dia 5 de janeiro, então o Congresso pode ser
convocado para trabalhar nos últimos 10 dias do mês. Então, se o
Brasil continuar fazendo as reformas políticas, e reduzindo as taxas de
juros, além de uma trajetória decrescente na inflação, a tendência
é o otimismo permanecer ao longo do ano.
Maurício Martins (Portal Economia) – Você acha que a
tendência do dólar ainda é de queda ou pode passar a ter uma maior
atuação do BC?
Paulo Gomes (Global Invest) – O que acontece com o dólar hoje
é que está havendo um fluxo muito grande de investidores estrangeiros,
principalmente, e ao mesmo tempo os exportadores estão começando a
reclamar bastante para o Governo fazer alguma coisa. Na semana passada,
participei de um debate numa rede de televisão brasileira na semana
passada, e fui o único a não defender uma intervenção mais forte do
Governo sobre o dólar. O que todos estão pedindo é que o Governo faça
com que este dólar siga uma trajetória contrária, para favorecer a
exportação.
O mais provável é que o Governo não faça uma atuação direta,
comprando dólares diretamente, mas facilite a compra de dólares pelos
outros agentes. Por exemplo: o Tesouro Nacional tem dividas em dólares
e pode comprar moeda americana antecipadamente para saldar esta dívida;
atualmente, isto só pode ser feito para dívidas que estão vencendo
nos próximos 180 dias; a expectativa é que este prazo dobre, podendo
também ser comprado dólar antecipado para o que está vencendo entre 6
e 12 meses; uma atuação semelhante foi feita em 2 de novembro, quando
dobrou de 90 para 180 dias (o prazo atual),e dois meses antes já havia
aumentado de 60 para 90 dias. A autoridade monetária pode tomar
medidas, mas cada vez torna-se menor o espaço de manobra para o Governo
(BC) fazer alguma coisa. Agora, se isso continuar assim ao longo do ano,
e a economia crescer, vamos ver importações subindo e exportação
caindo, uma vez que as industrias ao verem o mercado interno aquecido, vão
preferir abastece-lo a enviar para fora.
Maurício Martins (Portal Economia) – E aí
voltamos a ter uma serie de problemas do passado, né?
Paulo Gomes (Global Invest) – É verdade, Maurício
Maurício Martins (Portal Economia) – Mas quanto a questão
das tentativas do BC de pressionar a cotação do dólar, tivemos a não
rolagem de swaps e títulos cambiais...
Paulo Gomes (Global Invest) – Exatamente. E tivemos agora um
vencimento de pouco mais de 2 bilhões de dólares de divida indexada ao
dólar, entretanto, nos próximos dois meses não chega a 1 bilhão que
o Governo tem que rolar. Então, se não tem espaço para subir, o dólar
cai. Como o investidor está vendo que não está tendo comprador, nem o
BC, nem o Tesouro vão ter necessidade de comprar, então não tem
sustentação para o dólar, e ele cai.
Maurício Martins (Portal Economia) – Você acha então que,
pelo menos a princípio, a tendência neste ano é de continuidade do
otimismo?
Paulo Gomes (Global Invest) – É, com certeza. Eu acho que é um
otimismo cauteloso. Hoje foi muito rápido para um dia só, foi um
otimismo muito exacerbado/exagerado, acho que ao longo da semana haverá
um pouco mais de cautela, e amanhã as pessoas devem acordar e ver que
exagerou um pouco na dose. Porém, olhando para o Brasil não se vê
nenhum risco mais serio no país, e como está sobrando dinheiro no
mundo, com a taxa de juros nos EUA em 1% , está difícil achar um lugar
para conseguir um bom rendimento, e o Brasil ainda paga bem mais que 1%.
Por isso, ainda existe um bom espaço para ter otimismo. |