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:: Entrevista :: 11/05/2004
Com: Vladimir Caramaschi (Economista-Chefe da Fator
Corretora) -------------------------------------------------------------------------------------------------
à
Ouvir a entrevista em áudio
(clique
aqui)
Abaixo, você confere a entrevista
do Portal Economia sobre a turbulência nos mercados brasileiro e
mundial e as perspectivas no curto prazo.
Vladimir Caramaschi destacou que o ponto fundamental desta
turbulência é a alta dos juros nos EUA - que deve ocorrer antes do que
o mercado esperava inicialmente -, uma vez que tal fato
consumado acarreta uma série de ajustes nos mercados mundiais com
destaque para os emergentes, já que ocorre uma redução da
exposição aos mercados de maior risco. Ele também analisou as
perspectivas para o mercado financeiro brasileiro e mundial nas próximas
semanas.
Confira abaixo a íntegra da entrevista!
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Maurício Martins
(Portal Economia) : Vladimir, nestes últimos dias no mercado
observamos uma reversão nos cenários, com queda na Bovespa e nos
demais mercados, dólar em alta, bem como piora do risco-país e
desvalorização dos títulos da divida brasileira. A que você atribui
esta reversão de cenário?
Vladimir Caramaschi (Economista Chefe - Fator Corretora) : O ponto fundamental é a
antecipação da alta dos juros nos EUA, que o mercado já esta
esperando para junho sendo que anteriormente a maior parte do mercado
apostava que esta alta só ocorreria em 2005. Com a alta acontecendo em
junho, então uma serie de processos de ajustes são disparados na
economia mundial, afetando em particular os mercados emergentes. Tanto
porque uma alta de juros [nos EUA] diminui o apetite por risco dos
investidores em títulos destes países [emergentes] e também porque
uma alta de juros também afeta preços de commodities e taxas de câmbio.
Então, há todo um processo de redução de exposição nos mercados de
maior risco e, portanto, esta queda nas bolsas, a desvalorização do
Real e o aumento do Risco.
MM – Uma fato interessante que estamos observando é o Brasil
estar melhor no balanço de pagamentos, registrando também superávit na
balança comercial. Será que justifica toda esta pressão, repentinamente,
no mercado de câmbio?
VC – Sem dúvida, a situação é melhor hoje que no passado. O
Brasil enfrentou crises em situações mais desfavoráveis do que hoje.
No entanto, o país ainda tem algumas vulnerabilidades importantes como,
principalmente, a alta relação dívida/PIB, então sempre que há uma
crise a questão da estabilidade da dívida ressurge e também o fato de
que o país, apesar do crescimento do saldo comercial e das exportações
nos últimos anos, ainda é uma economia relativamente fechada e,
portanto, quando um choque nos atinge ele acaba tendo um impacto maior
no mercado de câmbio se comparado com países que tem uma economia mais
aberta.
MM – Você acredita que a taxa deva continuar neste nível de
R$3,10 ou deve retornar ao patamar de R$2,90?
VC – Eu não espero que, no curto prazo, retorne para aquele
patamar. O mercado está muito volátil e, apesar de ter dado alguns
sinais de melhora hoje (11/05), eu acho que a situação ainda é
bastante delicada e não acredito que já estejamos num processo de recuperação
sustentada. Acho que as próximas semanas ainda serão de muita
volatilidade e, se eu fosse apostar neste momento, apostaria que o
processo tende a continuar um pouco mais ainda, ou seja, alguma desvalorização
adicional [do Real] no curto prazo. É difícil saber se isso vai se
confirmar ou não, mas me parece o mais provável neste momento. E, por
outro lado, não acredito que estejamos vivendo uma crise que vá levar
a alguma conseqüência mais grave. Apesar de haver uma chance da situação
piorar um pouco mais, descarto como cenário básico um problema mais sério
que pudesse levar o cambio a um nível muito desvalorizado e que gerasse
uma pressão inflacionária e que, por sua vez, obrigasse o BC a elevar
juros. Acho que há um potencial para as coisas piorarem um pouco, mas não
acredito que ela vá se deteriorar a ponto de obrigar o Governo a tomar
uma atitude mais drástica em relação à política monetária.
MM – Então não seria o caso de o BC realizar intervenções
no mercado de câmbio?
VC – Intervenções no mercado de cambio podem até ser necessárias,
principalmente através da rolagem do passivo cambial. No dia 19 agora
(de maio) há um investimento importante de títulos cambiais. O BC vinha
resgatando estes títulos, mas neste cenário mais turbulento ele
poderia optar por rolar estes vencimentos e, portanto, eliminar parte da
pressão sobre o câmbio. O que acho eu estou descartando, por enquanto,
é a possibilidade do aumento de juros.
MM – Você acha que nesta próxima reunião do COPOM, mesmo com
a situação de cautela mundial, existe espaço para corte de juros?
VC – Vai depender de como a situação evolui nesta semana até
a reunião do COPOM. Eu acho que mesmo antes da situação se agravar
– como ocorreu na semana passada – a expectativa já era de um corte
bastante modesto. Eu acho que, hoje, o cenário mais provável é de manutenção
da SELIC mas acho que ainda não dá para descartar totalmente um corte
de 0,25%, principalmente se recuperação vista hoje (11/05) se
sustentar nos próximos dias.
MM– Mas certamente este cenário novo das últimas semanas certamente
dificulta uma queda um pouco maior da SELIC, não é verdade?
VC – Eu acho que sim. Seria bastante arriscado para o BC optar
por uma queda maior neste momento, pois isto poderia jogar mais “lenha
na fogueira” da desvalorização, poderia agravar as expectativas
negativas em relação a taxa de câmbio e, indiretamente, à inflação,
e portanto não me parece que seja um opção muito provável de ser
adotada. Eu acredito que eles continuarão a ser bastante cautelosos; já
seriam sem esta crise e, mais ainda, agora.
MM – Você considera preocupante o IGP-DI de abril divulgado
que mostrou uma pressão d e preços no atacado mas não no varejo?
VC– Eu acho que ele só confirmou o quadro que já tínhamos
com o IGP-M do mês de abril e, por enquanto, isto não me preocupa. O
índice veio relativamente em linha com o que esperávamos e não
acredito que a recuperação da economia doméstica já tenha gerado um
patamar de renda suficiente para que seja visto um repasse maior para os
preços ao consumidor. Continuo vendo uma situação mais tranqüila do
ponto de vista de preços ao consumidor e, portanto, do ponto de vista
do que é relevante em essência para a política monetária do BC.
MM – Você acredita, então, numa piora da situação macro-econômica
do Brasil nas próximas semanas, antes de haver uma correção?
VC – Eu acho que sim. Eu acho que, por enquanto, mantenho a idéia
de que a economia segue em recuperação. Só se houvesse um agravamento
maior da crise e as taxas de juros maiores [de mais longo prazo] que foram
praticadas nos últimos dias se consolidassem, aí sim poderíamos ver
uma reversão da expectativa de crescimento da economia para este ano.
Com relação a inflação, continuo relativamente tranqüilo. Eu acho
que vai ser muito difícil o BC cumprir com os 5,5% da meta de inflação,
mas continuo acreditando que ele consegue chegar com um resultado até
bem abaixo do teto da meta de inflação, de 8%.
MM – Você não acha que esta turbulência pela qual estamos
passando pode prejudicar esta estimativa de crescimento de 3,5%?
VC – Acho que tudo vai depender do que acontecer no mercado de
juros, principalmente. Por enquanto, houve uma piora, mas até que ela
realmente se reflita no nível de atividade, teremos que ver as taxas de
juros do mercado futuro se irão se consolidar realmente neste patamar mais
alto. Como eu não estou adotando como cenário básico um cenário no qual
o BC seja obrigado a elevar a SELIC, então, de forma indireta, estou acreditando
que estas taxas possam recuar pelo menos um pouco nas próximas semanas.
MM – Para o pequeno/médio investidor, qual a melhor aplicação
financeira que você considera para um momento de crise como este?
VC – Eu acho que o conselho é tentar evitar os ativos de maior
risco. Eu não acho que, apesar de todas as quedas, seja o momento de
apostar numa recuperação muito forte da bolsa (Bovespa). Eu acho que o
ambiente irá continuar muito volátil para isso, então eu daria preferência
para alternativas de menor risco – como fundos de renda fixa mais conservadores,
CDB’s, ou seja, ativos que não ficassem muito expostos às flutuações.
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