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ENTREVISTA

   :: Entrevista :: 12/05/2004
Com: Paulo Gomes (Analista de Mercado da Global Invest)

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à Ouvir a entrevista em áudio (clique aqui)

        Abaixo, você confere a entrevista do Portal Economia sobre a turbulência nos mercados brasileiro e mundial e as perspectivas no curto prazo.

      Paulo Gomes destacou que a "lua-de-mel" do mercado com os países emergentes, de um modo geral, acabou. Isso por conta do cenário mundial tenso, com o barril de petróleo batendo recordes históricos e a tendência de elevação dos juros norte-americandos em breve. No cenário brasileiro, destaque para as turbulências políticas, que ajudam a sustentar o movimento de cautela nos mercados financeiros aqui do Brasil. Paulo Gomes falou também das perspectivas da Bovespa e do câmbio no curto-prazo e destacou os fundos de renda fixa DI como os melhores investimentos para os momentos de turbulência.

        Confira abaixo a íntegra da entrevista!

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Maurício Martins (Portal Economia) – Paulo, será que acabou a “lua-de-mel” do mercado com o Brasil?
 
Paulo Gomes (Analista de Mercado - Global Invest) – Aparentemente, acabou a lua-de-mel do mercado com os emergentes de uma maneira geral. Eu acabei de analisar agora os riscos dos países emergentes, e eles tem se movimentado muito alinhados. O que temos observado é um cenário internacional muito conturbado, com o petróleo tendo atingido hoje o seu recorde histórico – de US$40,77/barril em NY – e isso realmente vai se traduzir em mais inflação e aumento de juros nos EUA. Hoje também foi divulgado que houve um aumento no déficit da balança comercial norte-americana de US$42bi em fevereiro para US$46 bi em março.
Então, esta situação toda não é algo tão específico em relação ao Brasil, mas em relação ao mundo. Porém, no Brasil existem alguns outros fatores atenuantes, como a turbulência política (caso da reportagem do Lula no NYT) e também a votação ocorrida na semana passada a respeito da MP dos bingos no Congresso.
 
Maurício Martins –  Observo também dois fatos importantes ocorridos: a suspensão do visto do jornalista do NYT pelo governo brasileiro e a aprovação numa Comissão da Câmara do projeto de lei que prevê o fim da obrigatoriedade da assinatura básica na telefônica fixa (este último fato, que observei ter influenciado negativamente a Bovespa).
 
Paulo Gomes – Esses foram dois equívocos do Governo Brasileiro. O primeiro, de colocar gasolina nesta fogueira. A notícia [do New York Times] passaria despercebida pela maior parte dos brasileiros – que não tem tanto conhecimento do NYT – e realmente ficou uma impressão de que o Lula tem uma imagem desgastada no cenário internacional – o que não é verdade, então tal fato foi uma reação ingênua e que acaba por, de certa forma, afastar os investidores estrangeiros e o que é pior: passar uma imagem de um país que não tem livre imprensa, que não respeita a liberdade de opinião
Com relação ao IBOVESPA, a aprovação na Comissão de Defesa Econômica da Câmara do projeto de Lei que retira a assinatura básica da telefonia, é algo muito pequeno porque isto ainda precisa ser votado no plenário, chegar ao Senado e ainda pela aprovação do presidente, e então entrar em vigor. E a própria ANATEL é contra esta medida. Para você ter uma idéia, aqui no Brasil a taxa media de assinatura mensal é de R$22; nos EUA, é de R$76. Não porque lá tudo é mais caro; o custo de ligações de longa distância, celulares é mais barato lá do que aqui. Essa é uma das poucas tarifas de telefonia que aqui é barato. Caso estas companhias não possam cobrar [a assinatura], o que eu acho que não vai ocorrer, elas transfeririam este custo pro custo da ligação. Então, realmente é um equivoco, e o mercado se recuperou, diminuindo a dimensão de queda [no IBOVESPA, que inicialmente tinha repercutido mal este acontecimento].
 
MM –  Falando em IBOVESPA, este retornou a índices de novembro do ano passado. Você acha que devem continuar havendo quedas no índice ou haverá uma recuperação? Qual a tendência daqui para frente?
 
PG – Eu acho que nos próximos dias ainda irá continuar uma volatilidade alta, não só pelas questões internas mas também pelas externas. Amanhã, teremos dados do consumo nos EUA divulgados e ainda nesta semana dados da inflação nos EUA. O mercado espera 0,5%; em março já foi de 0,5%, o que anualisado dá pouco mais de 6%. Então, o mercado esta inquieto, achando que já em 30 de junho possa haver um aumento dos juros nos EUA. Eu acho que existem grandes chances disto ocorrer, uma vez que dados da economia norte-americana como o déficit da balança comercial, o petróleo em níveis recordes, então tem que segurar-se os preços, sendo necessário um aumento [dos juros] para 1,25%. No momento, este cenário de aumento é o mais provável. A questão do petróleo repercute em aumento de custo de energia no mundo inteiro, até mais nos EUA do que aqui, uma vez que lá boa parte da energia é gerada através de termoelétricas – com a queima de combustíveis fosseis. Então, como o petróleo afeta o frete – e o custo de praticamente todos os produtos – isso realmente é um fator que preocupa em termos de inflação para os americanos. Agora, de qualquer maneira uma elevação de 1% para 1,25% é grande em termos de ser um quarto de elevação, mas por outro lado seria pequeno por EUA ainda terem uma taxa de 1,25% com o petróleo nos níveis mais altos da história.
 
MM  – E até porque também o petróleo também preocupa no sentido do próprio crescimento mundial, né?
 
PG - Com certeza. Essa é a principal ameaça ao crescimento mundial. O mundo inteiro estava relativamente otimista com esta recuperação da economia americana, bem como também estava sendo verificada uma recuperação na Inglaterra – tanto que eles aumentaram os juros. Na Europa também existe uma recuperação econômica na Alemanha, e o Japão também mostrou indícios de recuperação este ano, depois de mais dez anos de estagnação.
Mas o pior cenário é aquele de estagnação com inflação. Então, realmente não estamos vendo um cenário de estagnação – vai haver crescimento econômico – mas é necessário segurar a inflação para que este crescimento econômico não seja “falso”.
 
MM  – E aqui no Brasil, além da queda do IBOVESPA, estamos observando o dólar em alta – atingindo as maiores cotações em mais de um ano. Essa pressão no mercado de câmbio é pontual, ou será uma tendência vermos, daqui para frente, o dólar acima de R$3
 
PG – Eu acho que daqui para frente o dólar estará acima de R$3. Dificilmente veremos ele abaixo deste patamar por uma série de fatores: realmente o mundo mudou, existindo uma tendência de aumento de juros e aumento de preços – por causa desta alta do petróleo. E, também, para piorar a situação tem-se uma oferta pequena de dólar no Brasil. Está certo que a balança comercial vem exibindo resultados muito positivos – louváveis – mas o BC, por exemplo, decidiu não rolar ontem uma dívida cambial de US$2,1bi que vence no próximo dia 19. Então, o mercado precisa se proteger, não é especulação. As empresas importadoras precisam comprar dólar antecipadamente para que elas não quebrem. E outras companhias precisam de dólar para necessidades. E, em véspera de meses de férias – há uma maior demanda por dólares. Nós estamos, também, com uma séria ameaça de aumento no preço do pãozinho francês, que todos nós comemos, e também em outros produtos derivados do trigo – como massas. Outros setores, como o de mineração, siderurgia, tiveram preços de aumento em dólar. Portanto, a  demanda por dólar é bem maior que no passado. Então, acho que dificilmente veremos o dólar abaixo de R$3. Considero um piso para o dólar de R$3,05. Mas acho que nas próximas semanas, na media, veremos ele ligeiramente acima de R$3,10.
 
MM – Até porque o Tesouro Nacional disse que a estratégia do BC vai ser de continuar não rolando estes papéis cambiais. E isto contribui, então para uma pressão no mercado à vista.
 
PG – Com certeza. Eu acho que a única coisa que pode inverter estas expectativas é o caso do BC reverter esta decisão dele, ou então realizar captações no mercado externo. Mas como o risco-pais esta em um nível muito elevado – 750 pontos – dificilmente ele vai buscar recursos no mercado internacional pagando juros muito elevados. E, como as companhias brasileiras, também estão sofrendo este aumento de risco, não conseguindo captar [recursos] a custos baixos, então a gente não tem muito fluxo de dólares entrando no Brasil, a não ser pela balança comercial.
 
MM – Você acha acertada a decisão do BC de não mais rolar estes títulos cambiais?
 
PG – Sinceramente, discordo do BC nesta política. Eu acho que em momentos de alta do dólar (e do hedge cambial em níveis nunca vistos no governo Lula), então para acalmar o mercado e evitar flutuações muito expressivas na moeda, eu acho que o ideal seria realmente fornecer o famoso “hedge cambial” por títulos indexados ao dólar. Eu acho que seria a política mais estratégica, e acho que o que está acontecendo é eles tentarem “tapar o sol com a peneira” dizendo que não há preocupações e que o dólar vai recuar, mas não há dados que apóiem esta expectativa.
 
MM  – Fala-se muito que a alta volatilidade do dólar é algo que não é saudável para o mercado...
 
PG – Exatamente. Eu acho que a única explicação para esta decisão do BC é evitar a exposição da divida em dólar. O dólar mantendo-se neste valor já vai refletir em um aumento na relação divida/PIB, que encontra-se hoje em 57,4% e com esta alta do dólar é possível que mova-se na tendência dos 60%. Então, talvez seja esta a intenção do BC. Porém, a afirmação que ele tem feito de que o dólar vai recuar e que a economia esta em um nível muito saudável, nós sabemos que não é o real motivo desta decisão de não rolar as dívidas.
 
MM  – E você vê o dólar para o final do ano ainda na casa dos R$3?
 
PG – Não mudamos a nossa expectativa por enquanto – de R$3,15/US$1 no fim do ano – desde o inicio do ano estamos com esta previsão. Mudamos recentemente, na ultima sexta-feira (7/5), a expectativa de crescimento econômico de 3,4% para 3,1%; aumentamos a expectativa de inflação de 5,3% para 5,8% no IPCA. Mas em termos de taxa câmbio existe neste período uma tendência de estabilidade na cotação – seja no nível em que ela for – mas realmente no momento a volatilidade esta muito alta. Mas, por enquanto, R$3,15 ainda não é uma taxa irreal pro fim do ano.
 
MM  – Com relação ao risco-país, como você observa para o fim deste ano e daqui para frente?
 
PG – Verifico que o risco-país deve mover-se entre 700 e 850 pontos  - num intervalo melhor, de 750 a 800 pontos – isso no curto prazo. Mas quando aumentarem os juros nos EUA, ele irá subir mais.
 
MM  – Com relação ao crescimento brasileiro, o IBGE divulgou que a produção industrial cresceu 2,1% em março sobre fevereiro e 11,9% sobre igual mês de 200. Você considera este crescimento consistente, que mostra que a economia brasileira esta se reaquecendo e seguindo a trajetória do crescimento?
 
PG – Eu acredito que há uma informação um pouco dissimulada pela forma como governo está explorando isso. Os únicos setores industriais que realmente estão mostrando uma recuperação expressiva são os voltados a exportação. A demanda interna está tão deprimida, e com o dólar subindo e a renda pessoal deprimida, tende-se a ver um desvio da produção interna para exportações. Com isso, o Brasil tem ganhado escala e competitividade – no sentido de uma economia mais preparada para a exportação. Mas o cenário doméstico não está reaquecido. Os dados divulgados ontem (11/05) pela industria automobilística mostraram um desaquecimento em relação ao começo do ano e talvez seja isso esteja fazendo o presidente Lula pensar uma redução do IPI. Então, a indústria voltada ao mercado doméstico ainda está bastante deprimida.
 
MM  - E você acha que o BC vai manter a taxa de juros na próxima semana, tendo em vista a situação de cautela no mercado, ou existe espaço para uma pequena queda?
 
PG – Existe espaço para uma pequena queda. Oficialmente, estamos com uma expectativa de redução de 0,25%, mas não vai me surpreender se o BC não cortar a taxa. Se hoje existe espaço para uma queda de 0,25%, este espaço era maior na última reunião. E, por que, então, isto não foi feito na ultima reunião, o que economizaria recursos do país [com o pagamento de juros]. Então, seria inconsistente se ele baixar agora a taxa de juros. Mas que existe espaço, existe.
 
MM  – É, o BC vem sempre se mostrando conservador, e pode justificar com o argumento de que o modelo é de cautela..
 
PG – Sim, mas por outro lado, os indicadores de inflação tem apresentado ligeira alta. Ainda estão baixos, hoje teve o IPC da FIPE mostrando mais uma alta, bem como o IGP na semana passada. Mas o que tem se alegado é que o núcleo da inflação ainda está baixo; sim, isto é verdade, mas não adianta querer mostrar apenas um pedacinho da foto.
 
MM  – O IGP-DI divulgado na semana passada mostrou uma alta de preços no atacado mas não no varejo, o que teoricamente indica que possa haver um repasse desta alta para o consumidor num futuro próximo.
 
PG – Com certeza, acho que é isso que devemos observar nos próximos meses. Porque o varejo chega um ponto em que ele não consegue mais segurar [o não repasse dos aumentos] e o máximo que ele pode fazer é se recusar a comprar do atacadista forçando este a baixar os preços. O atacadista até poderia baixar os preços caso os custos dele não estivessem aumentando; mas com o dólar subindo, não existe alternativa. E se ele baixar os preços, vai trabalhar com lucro negativo. Então, mais cedo ou mais tarde o atacadista vai falar: “o preço é este, ou você compra ou eu não te vendo”, e isto deve sim acontecer nos próximos meses. Os preços são mais ‘preguiçosos’ para descer do que para subir.
 
MM  – Recebemos algumas perguntas de usuários do Portal Economia sobre qual a melhor opção de investimento tendo em vista este cenário turbulento. Muita gente disse que investiu em fundos de ações, e perguntaram se é o momento para tirar o dinheiro, ou pode-se esperar?
 
PG – Acho que, no momento, a melhor opção de investimento são os fundos de renda fixa DI – ou seja, os vinculados a taxas de juros futuras. Pois, certamente, não vamos ver quedas expressivas de juros, sendo possível até uma alta de juros no segundo semestre – por enquanto, não estamos incorporando isso como uma estimativa oficial, mas cresce este risco, o que favorece os fundos DI.
Mas para quem já estão aplicados na bolsa eu recomendo a manutenção dos papéis, pois eles tendem a se recuperar ate o fim do ano, como por exemplo os papéis de exportadoras – como a Vale do Rio Doce, Aracruz. Porém, no caso da Light – altamente endividada em dólar -  e de algumas siderúrgicas que apresentaram forte valorização no ano passado, pode haver uma depreciação no preço das ações. Com relação a fundos cambiais, só aquele individuo que vá precisar de dólar – seja para uma viagem, ou uma importação – então é melhor ele comprar agora. Porém, para comprar e vender depois realmente não vale a pena.
Infelizmente, muitas vezes as pessoas esperam a alta para comprar, e acabam comprando no pico, e depois que cai muito eles se assustam e vendem. O mais importante no mercado financeiro, especialmente neste momento de  volatilidade, é manter o sangue-frio, manter a tranqüilidade, e só fazer apostas de risco com aquele recurso que você não precisa no curto prazo.
 
MM  – Com certeza, a bolsa não terá uma valorização tão expressiva nesta ano quando no ano passado né?
 
PG – Eu acho que completamente fora de cogitação esta hipótese. Tivemos no ano passado uma valorização de 97% - 141% em dólares, a maior do mundo, e realmente não se vê uma valorização expressiva, na história, em anos consecutivos. Entretanto, existem papéis que ficaram baratos e não acompanharam a alta toda do ano passado, e que podem se beneficiar neste ano. Por isso, é importante o investidor analisar bem qual o papel que ele ou o fundo no qual ele está investindo está comprando e se for necessário, realmente pressionar o administrador de seu fundo para mostrar quais papéis ele está comprando.
 
MM  – Então, para quem quer segurança, a melhor opção ainda são os fundos de renda fixa?
 
PG – Com certeza. Os juros ainda são altos – estamos com o segundo maior juro real do mundo – e o risco é relativamente baixo
 
MM  – Como você resumiria um poucas palavras a situação atual da economia brasileira e a sua expectativa para o futuro?
 
PG – Eu acho que é como se estivéssemos em uma certa montanha-russa. O Brasil, assim como os emergentes, está sem cinto de segurança. Então, realmente a volatilidade é muito alta, e por incrível que pareça, é necessário manter a tranqüilidade e evitar perseguir muito o ‘efeito manada’ – se a bolsa cai, você vende; se o dólar sobe, você compra. Então, realmente você tem que ser bem racional e pouco emocional nestas decisões.

 

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